DUAS PRINCESAS PORTUGUESAS INUMADAS NA CAPELA DE PORTUGAL

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Na catedral de Saint-Pierre, em Genève

Portugal tem uma capela na Catedral de Saint-Pierre, em Genéve, uma das catedrais mais emblemáticas da Suíça, onde se encontram inumadas duas princesas portuguesas. Ambas foram proprietárias do Castelo de Prangins, atualmente museu nacional suíço. Quis o destino que as duas, mãe e filha, tivessem o mesmo destino, já que os seus casamentos, frutos de uma grande paixão, terminaram em separação…

Aquando de uma visita que fiz ao centro histórico de Genève em 2016, deparei-me na Catedral de Saint-Pierre com a Capela de Portugal. Numa lápide, existente na capela, logo percebi que Emília de Nassau e Maria Belgia, princesas portuguesas, estavam lá inumadas e a literatura revelada nessa lápide deixava antever grande história, razão pela qual existia a capela de Portugal. O nome de Maria Belgia era já meu conhecido, pois em 2005, alguém me tinha falado, de forma pouco elogiosa (veremos mais à frente porquê), um pouco da sua vida na Suíça, tendo-me nessa altura revelado que ela era, apesar de tudo, nome de uma avenida em Lausanne e detentora de diversas outras lápides noutros locais da Suíça. Fatos que pude facilmente constatar, servindo-me de diversas fontes… Desconhecia contudo a existência da capela de Portugal…

A Cathédral de Saint-Pierre, transformada em templo protestante, em 1535, foi agraciada como Património Europeu, pela União Europeia, em 2011. Uma honrosa distinção, sem dúvida, para Portugal e para os portugueses, graças às princesas Emília de Nassau e Maria Belgia, sua filha mais velha, que nela estão inumadas. Mas afinal quem eram estas princesas portuguesas para merecerem tamanha distinção? Com nomes estranhos, nada portugueses, como eram elas princesas de Portugal?

Emília e Manuel contraem secretamente casamento, em Haia

Emília de Nassau, princesa de Orange, filha de Guillaume Le Taciturne, nascida em 1569, em Belt, calvinista, casa em segredo na cidade de Haia, no ano de 1597, com Manuel de Portugal, nascido em 1568, em Lisboa, príncipe de Portugal, filho de D. António, Prior do Crato e de Ana Barbosa.

Dadas as enormes diferenças religiosas entre ambos, daí o secretismo do mesmo, é de perguntar como foi possível chegar a este casamento? Conheceram-se na Flandres. Emília de Nassau apaixonara-se perdidamente pelo príncipe português…

Para compreendermos ainda melhor este caso, talvez seja melhor recuarmos aos tempos da crise da dinastia de 1580 (ver narrativa sobre a  vida de D. António na página ……). D. António, pai de D. Manuel, foi aclamado rei de Portugal, em Santarém, mas um mês depois, a 25 de agosto de 1580, acaba derrotado na batalha de Alcântara, o que termina com o seu fogaz reinado. Nessa altura, mesmo com o apoio de França e da Inglaterra em diversas batalhas empreendidas, não conseguiu libertar Portugal do domínio castelhano, pois nunca conseguiu derrotar Filipe II, o qual foi aclamado rei de Portugal, em 1581, nas Cortes de Tomar. Dois anos depois, D. António foi obrigado a submeter-se ao exílio, em França. Foi por este motivo que D. Manuel, que usou o título de príncipe herdeiro de Portugal, durante o curto em que o seu pai reinou, acompanhou D. António no exílio, em França, ingressando na Flandres em 1588, seguindo depois para Inglaterra em 1590, onde permaneceu até 1595, altura em que faleceu o seu pai e se dá o seu regresso à Flandres.

Dois anos depois, em 17 de novembro de 1597, dá-se então o casamento do príncipe Manuel de Portugal e da princesa Emília de Nassau. Este casamento ficou marcado, não só pelas diferenças religiosas entre eles, as quais implicavam forte oposição familiar, mas também pelo pouco interesse de D. Manuel no que concerne às pretensões ao Reino de Portugal, sob domínio espanhol (60 anos), tendo como desenlace a separação do casal, volvido cerca três décadas, ficando D. Manuel com os seus dois filhos católicos, em Bruxelas, onde se instalou e Emília, com as suas seis filhas.

Emília de Nassau adquire o Castelo de Prangins

 

Devido à sua fé calvinista, esta procurou refúgio em Genève, em 1626 (já a cidade de Calvino), tendo ido viver para uma casa, que ficou conhecida como Castelo Royal («Château Royal»), a qual tinha pertencido a duas prestigiadas famílias, Viry e Gallatin. Um ano depois, a princesa Emília comprou uma casa, a qual se encontra atualmente no número 7 da rue de Verdaine. Finalmente, em 1627 comprou à família Diesbach, a Baronia de Prangins, próximo de Nyon, uma vasta extensão de terras de origem medieval e feudal que compreendia as atuais localidades de Vich, Bursinel, Gland, Genolier, Arnex e Givrins, algumas das quais hoje cidades de assinalável envergadura populacional.

EMÍLIA DE NASSAU E MARIA BELGIA: DUAS VIDAS, O MESMO DESTINO…

Emília de Nassau, não obstante ser uma rica herdeira, teve sempre muitas dificuldades económicas ao longo da sua vida, devido aos gastos excessivos primeiramente do seu marido, D. Manuel, e depois da sua filha, Maria Belgia. Rapidamente se tornou muito popular em Prangins, abolindo a obrigatoriedade ao trabalho gratuito nos seus domínios e renunciando igualmente a muitos dos seus privilégios, o que em nada a favorecia. A agravar toda esta situação, Emília manteria um conflito litigioso com o seu meio irmão, Frédéric-Henri, relativamente aos seus direitos sucessórios e recusava inclusive receber uma renda que o seu irmão, o príncipe Maurice (um grande defensor da fé protestante, homenageado em Genève, onde a sua estátua é bem visível no Muro dos Reformadores), lhe havia atribuído, a si e às suas filhas, pois dela simplesmente discordava.  Tudo isto serviu para agravar muito as suas dificuldades financeiras, de tal maneira que os seus rendimentos não chegavam para cobrir as grandes despesas.

Maria Belgia, contra vontade de sua mãe, apaixona-se por jovem coronel alemão

Mas o pior estava ainda para acontecer, Maria Belgia, nascida em 1599, em Delt, na Holanda, portadora de rara beleza, renunciava por amor, contra a vontade da sua mãe, a um casamento economicamente vantajoso, tendo-se  apaixonado por um jovem oficial alemão de condição modesta, coronel Jean Théodore de Croll, originário de Heidelnerg, o qual se tinha mudado para Genève ao serviço do Margrave de Baden-Durlach. A sua mãe destinara-lhe, um nobre calvinista, detentor de abastada fortuna. Para poder realizar o seu casamento com o coronel Croll, Maria Belgia desloca-se, à revelia da sua mãe, a Hague, para negociar com o seu tio, Fréderic-Henri, um acordo sobre os direitos à herança da sua mãe, do qual obteve uma renda para si e para os seus herdeiros e requisitar a herança da sua tia, Maria de Nassau, condesa de Hohenlohe.

  1. Manuel, por seu turno, era ao momento um notável militar, com participações diversas em batalhas, em defesa dos interesses dos Países-Baixos. Mais tarde, sob a proteção do rei de Espanha, tendo sido muito bem recebido pela arquiduquesa Isabel, a qual governava os Países-Baixos e lhe atribuiu uma pensão anual.

Funeral de Emília de Nassau com honras de princesa

Emília de Nassau, doente e agastada com a vida, morre em 16 de Março de 1629, com 60 anos, na sua casa, sita na Rue de Verdaine, em Genève, deixando um testamento, lavrado em 22 de Fevereiro do ano correspondente à sua morte. Maria Belgia, de regresso da Holanda, assiste à morte da sua mãe. O seu funeral, efetuado em 18 de março de 1626, teve honras de princesa, prestadas pelo Estado de Genève e o seu caixão foi coberto com um pano aveludado, envergando de um lado as armas de Portugal  e do outro as de Nassau. Foi sepultada na Cathédral de Saint-Pierre, na Chapelle de Saint-Croix, mais tarde, com a Reforma, denominada Chapelle de Portugal.

Após um ano da morte de Emília de Nassau, D. Manuel voltou a casar, com D. Luisa Osório, espanhola, dama de honor da Arquiduquesa. Faleceu com 70 anos, em 22 de junho de 1638.

Maria Belgia torna-se proprietária do Castelo de Prangins e casa com o coronel Croll

Quase três meses depois da morte da sua mãe, em junho, Maria Belgia consegue estabelecer um acordo com as suas irmãs, no qual estas renunciavam aos seus direitos sobre Prangins em seu favor e voltavam à Holanda, onde viveram uma grande parte das suas infâncias, com todas as serviçais que vieram com a sua mãe, assumindo Maria Belgia todas as dívidas existentes. A intenção de se casar com o coronel alemão teve forte oposição do seu tio e dos Estados Gerais da Holanda, os quais em sintonia com as autoridades de Berne, que administravam todo o cantão Vaud, se opunham à sua realização, ameaçando prender o coronel Croll. Temendo o pior, Maria Belgia e Théodore de Croll fugiram durante a noite, através de um subterrâneo do castelo,  para Vevey. Embora os esperasse a mesma contestação, Maria Belgia, fazendo uso da sua influência, consegue finalmente realizar o almejado casamento na igreja de Bümpliz, em Berne, tendo, no entanto, o mesmo sido considerado como abaixo do seu estatuto e o seu marido era visto como um oportunista. Contudo, a Croll foi dado mais tarde o título de Barão de Prangins.

 

No centro a figura feminina que usa uma torre simboliza a cidade de Vevey, madrinha da pequena princesa.

 

Tiveram seis filhos, um rapaz e cinco raparigas. A cidade de Vevey aceitou ser madrinha de Émile-Catherine de Croll, segundo fillho do casal, existindo no Museu histórico de Vevey um quadro alegórico, oferecido pelo pintor Claude Villarzel sobre o seu nascimento.

O casamento de Maria Belgia revela-se infeliz

O casamento não foi feliz e foi primeiro aprovado e depois rescindido pelo governo de Berne. Contudo, antes de qualquer decisão definitiva, em 1640, Théodore de Croll foi assassinado, em Veneza, para onde se havia retirado. Maria Belgia é obrigada a vender uma grande parte dos seus bens para pagar muitas dívidas com que se deparava.

Maria Belgia inumada na Capela de Portugal ao lado da sua mãe

Morre em 1647, com 48 anos, na sua casa, na rua de Verdaine, em Genève e é enterrada ao lado da sua mãe na Chapelle de Portugal, na Cathédrale de Saint-Pierre, em Genève. A municipalidade de Prangins fica com o seu filho mais velho, Berne-Théodore, afilhado da cidade de Berne, o qual  faleceu, em 1656, sem descendência, tendo as autoridades bernoises ordenado a liquidação de todos os seus bens.

 

Castelo de Prangins totalmente arrasado e reconstruído

De anotar que em 1732, o castelo, na posse do barão Louis Guiguer, foi completamente arrasado para dar lugar a um novo castelo, o qual faz hoje parte de um dos quatro Musées Nationales Suisses existentes no país, sendo o único na Suíça Romande.

Inúmera descendência

Não se pense contudo que a descendência das princesas não marcou a sociedade suíça. Devido à descendência das suas cinco filhas, Maria Belgia aparece na genealogia de muitas famílias dos cantões de Vaud e Genève, incluindo os Arcambal, Bory, Vauthier, Chatelanat, Nicollier, Chavannes, Palézieux, Rochemondet, La Harpe, Correvon, Exchaquet, de Coster, Nicole, Du Martherey, Bugnion, entre outras.

Várias lápides honram a memória de princesa Maria Belgia

Para além da lápide ao lado do templo, localizado em frente ao pátio principal do castelo de Prangins, assim como placa com a denominação de Place Maria Belgia, no largo envolvente e da existente na Chapelle de Portugal, na Cathédrale de Saint-Pierre, ambas colocadas em 1910, a pedido do visconde de Faria, historiador e também ele descendente do rei de Portugal, há ainda uma num cais em Vevey; outra que denomina uma artéria de Lausanne com o seu nome (Avenue Maria Belgia), entre a Avenues du Servan et de Montchoisi; ainda uma lápide, evocativa do casamento de Maria Belgia com Jean Thédore Croll, na igreja de Bümpliz em Berne, esta igualmente a pedido do visconde de Faria e uma outra na Rue Verdaire, em Genève, no edifício que substitui a sua antiga casa do século XVI honram a sua memória.

 

Inauguração da Capela de Portugal 

A capela de Portugal (agora denominada Chapelle dite de Portugal), situada num espaço nobre à esquerda do altar-mor da Cathédrale de Saint-Pierre, com uma área de aproximadamente seis por quatro metros, foi, depois de muitos anos vedada ao público, finalmente restaurada, por iniciativa da Fondation Clés de Saint-Pierre, com o apoio do Consulado Geral de Portugal em Genève, o qual com a ajuda da várias empresas portuguesas, encomendou ao arquiteto Álvaro Siza Vieira três bancos, um pequeno altar e uma cruz estilizada, que emprestam à capela uma interessante e sóbria decoração. À entrada uma placa instalada, lembra-nos o respeito ao silêncio, deixando antever que de um local de culto se trata. A 10 de junho de 2018, pouco depois de concluídas as obras de restauração da capela, a festa nacional de Portugal, denominada Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foi comemorada em Genève, na Chapelle dite de Portugal, servindo a mesma para homenagear as duas princesas portuguesas do século XVII.

 

 

 

 

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